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Porque varia o preço da eletricidade ao longo do dia?

Variação do preço da eletricidade ao longo do dia em Portugal

O preço da eletricidade pode mudar bastante entre a madrugada, a manhã, o meio do dia e o início da noite. Em cada período, o sistema elétrico precisa de equilibrar o consumo com a energia que pode ser produzida ou importada. Muita oferta barata e procura moderada tendem a baixar o preço; procura elevada ou recurso a centrais mais caras tendem a aumentá-lo.

Em Portugal, a formação do preço grossista está integrada no Mercado Ibérico de Eletricidade, o MIBEL. No mercado diário gerido pela OMIE, produtores e compradores apresentam ofertas para o dia seguinte. O resultado depende do cruzamento entre oferta e procura, das interligações e das condições previstas. Por isso, dois períodos consecutivos podem ter preços diferentes mesmo quando o consumo de uma casa pouco mudou.

O ponto de partida: oferta e procura em cada período

A eletricidade tem uma característica essencial: produção e consumo têm de permanecer equilibrados continuamente. Não basta produzir muita energia durante a tarde para compensar diretamente um pico de consumo várias horas depois, a menos que essa energia seja armazenada. Assim, o mercado calcula um preço para cada período de entrega, atualmente apresentado em blocos de 15 minutos nos dados do mercado diário.

Do lado da procura entram as necessidades previstas de famílias, empresas, indústria, serviços e transportes. Do lado da oferta entram tecnologias com custos e limitações diferentes, como solar, eólica, hídrica, centrais a gás e importações. O preço resulta da combinação disponível naquele período, não da produção total do dia.

Fator Quando tende a baixar o preço Quando tende a aumentar o preço
Procura Consumo reduzido, frequentemente durante períodos de menor atividade. Picos de consumo doméstico, comercial ou industrial.
Produção solar Boa radiação e elevada produção nas horas centrais do dia. Pôr do sol, nebulosidade intensa ou menor produção sazonal.
Produção eólica Vento suficiente em Portugal e nas zonas ligadas ao mercado. Pouco vento e necessidade de substituir a produção esperada.
Hídrica e armazenamento Boa disponibilidade de água e flexibilidade para produzir nos picos. Reservas limitadas, menor afluência ou necessidade de conservar água.
Centrais térmicas Menor utilização ou custos de combustível e emissões mais baixos. Maior recurso a gás e outras unidades com custo variável elevado.
Interligações Capacidade disponível para importar energia mais barata. Congestionamento, indisponibilidades ou preços altos nas zonas vizinhas.

Como funciona o preço marginal no mercado OMIE?

De forma simplificada, as ofertas de venda são ordenadas das mais baratas para as mais caras. Primeiro entram as fontes que conseguem oferecer energia a menor preço. Se estas não forem suficientes para cobrir toda a procura prevista, o mercado vai aceitando ofertas sucessivamente mais caras até encontrar a quantidade necessária. A última oferta necessária para satisfazer a procura determina o preço marginal do período para a respetiva zona.

O exemplo seguinte é apenas ilustrativo e não representa preços atuais. Serve para mostrar porque uma pequena subida da procura pode obrigar o mercado a chamar uma tecnologia mais cara e alterar significativamente o resultado.

Oferta disponível no exemplo Quantidade acumulada Preço da oferta Resultado com procura de 80 unidades
Renováveis disponíveis 45 0 €/MWh Aceite
Produção hídrica 70 25 €/MWh Aceite
Central de ciclo combinado 90 70 €/MWh Aceite parcialmente e define o preço marginal
Produção térmica adicional 105 110 €/MWh Não é necessária

Neste cenário, embora grande parte da energia seja oferecida a preços inferiores, é necessário recorrer parcialmente à central de ciclo combinado para chegar às 80 unidades de procura. O preço marginal simplificado passa, por isso, a ser 70 €/MWh. Se a procura fosse menor ou existisse mais produção renovável, essa central poderia não ser necessária e o preço seria diferente.

Porque o meio do dia pode ser barato e o início da noite caro?

Num dia com muita produção solar, a oferta aumenta durante as horas centrais. Se o consumo não crescer ao mesmo ritmo, o preço pode descer. Perto do fim da tarde, a produção solar reduz-se rapidamente, enquanto muitas famílias regressam a casa e ligam iluminação, cozinha, climatização e outros equipamentos. Essa combinação cria a chamada rampa do entardecer: menos solar disponível e mais procura ao mesmo tempo.

O padrão, porém, não é garantido. Num dia com vento forte, a produção eólica pode manter os preços baixos durante a noite. Em períodos frios ou muito quentes, a utilização de aquecimento e ar condicionado pode aumentar a procura em horários diferentes. Para consultar a distribuição efetiva de cada dia, é mais útil observar os preços por hora da eletricidade do que assumir que existe sempre uma hora universalmente barata.

Renováveis, meteorologia e disponibilidade das centrais

A previsão de sol, vento e chuva influencia as ofertas apresentadas ao mercado. Mais produção solar ou eólica tende a reduzir a quantidade de eletricidade que precisa de ser fornecida por centrais com combustível. A produção hídrica acrescenta flexibilidade, porque pode ser utilizada para responder a períodos de maior procura, embora dependa da disponibilidade de água, das regras de exploração e da estratégia de gestão das reservas.

Também contam as indisponibilidades técnicas. Uma central em manutenção, uma avaria, limitações na rede ou uma previsão renovável falhada podem reduzir a oferta. O mercado intradiário permite ajustar posições com previsões mais recentes, mas não elimina toda a volatilidade.

Gás natural, emissões de CO2 e outras matérias-primas

Quando as renováveis, a hídrica e as importações não chegam para cobrir a procura, pode ser necessário recorrer mais a centrais térmicas. O custo variável dessas centrais depende, entre outros elementos, do combustível e das licenças de emissão de CO2. Se uma unidade a gás for a tecnologia marginal, alterações nestes custos podem refletir-se no preço grossista, sobretudo nos períodos em que a procura residual é elevada.

É por isso que o preço da eletricidade não depende apenas do que acontece em Portugal naquele momento. Os mercados de gás, carbono e eletricidade estão ligados a uma escala europeia. Ainda assim, o efeito sobre cada contrato doméstico varia. Uma tarifa indexada ao OMIE transmite as oscilações do mercado de forma mais direta do que um contrato com preço fixo, cuja atualização segue as condições comerciais acordadas.

Interligação entre Portugal e Espanha

Portugal e Espanha participam no MIBEL, mas continuam a ser zonas de preço distintas. Quando existe capacidade suficiente na interligação para realizar os fluxos resultantes do mercado, os preços das duas zonas tendem a coincidir. Quando essa capacidade fica totalmente ocupada, podem surgir preços diferentes em Portugal e Espanha durante o mesmo período.

As interligações permitem aproveitar produção mais barata noutra zona, mas não têm capacidade ilimitada. O mesmo princípio aplica-se ao acoplamento com o restante mercado europeu. Para aprofundar o mecanismo, consulte a OMIE sobre o mercado da eletricidade e a ERSE sobre o funcionamento do MIBEL.

Como podem aparecer preços muito baixos ou negativos?

Um preço muito baixo pode surgir quando existe muita produção disponível e pouca procura. Em alguns períodos, produtores com baixa flexibilidade, limitações técnicas ou incentivos específicos podem continuar a oferecer energia mesmo a preços negativos. Isso significa que, no mercado grossista, o equilíbrio entre oferta e procura foi alcançado abaixo de zero naquele intervalo.

Preço grossista negativo não significa automaticamente que uma família recebe dinheiro por consumir eletricidade. A fatura inclui regras contratuais, margens do comercializador, redes, impostos e outras componentes. A diferença entre o mercado e o valor pago pelo consumidor é explicada no guia sobre o preço grossista da eletricidade.

O que esta variação significa para o consumidor?

Para quem tem um contrato indexado ou dinâmico, o horário de consumo pode alterar a componente de energia da fatura. Cargas flexíveis, como termoacumulador, máquina de lavar, carregamento de veículo elétrico ou alguns sistemas de climatização, podem ser deslocadas para períodos de menor preço quando isso for seguro e compatível com as regras do contrato.

Para quem tem preço fixo, a oscilação diária do OMIE não costuma ser repercutida diretamente em cada período consumido. Mesmo assim, a evolução do mercado pode influenciar futuras propostas comerciais e renovações. Convém também não confundir preço indexado com tarifa bi-horária: um contrato pode ter períodos tarifários definidos e, ainda assim, não seguir exatamente cada variação do mercado grossista.

Como interpretar a variação sem tirar conclusões erradas?

Uma hora barata isolada não mostra uma tendência, tal como um pico não significa que o preço permanecerá elevado. Para avaliar o contexto, compare vários dias e observe médias mais longas na página do preço da eletricidade por dia. Quando o objetivo é compreender movimentos persistentes, sazonalidade e médias, consulte também as tendências do preço da luz.

A principal conclusão é que o preço varia porque a combinação de procura, renováveis, centrais disponíveis, combustíveis, emissões, meteorologia e interligações muda continuamente. O período mais barato de hoje pode não ser o mais barato amanhã. Em vez de confiar num horário fixo, é mais seguro consultar os dados atualizados e adaptar o consumo apenas quando o contrato realmente permite beneficiar dessas diferenças.

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