Comprar casa em Portugal: impostos e outros custos

Comprar casa em Portugal exige mais dinheiro do que o valor da entrada e da primeira prestação. Antes da escritura, o comprador pode ter de pagar sinal, avaliação bancária e despesas do processo de crédito. No momento da compra surgem o IMT, o imposto do selo e os custos de formalização e registo. Depois, começam os seguros, o condomínio, o IMI, as mudanças e a manutenção do imóvel.
O objetivo deste guia é organizar esses encargos pela altura em que aparecem. Assim, pode calcular a liquidez necessária e evitar usar todas as poupanças na entrada. Para estimar a prestação futura, também deve consultar taxas Euribor para financiamento e testar cenários menos favoráveis, sobretudo quando escolhe uma taxa variável.
| Momento | Custos mais comuns | O que deve confirmar |
|---|---|---|
| Antes do crédito | Sinal do CPCV, documentos, avaliação do imóvel e eventual apoio jurídico ou técnico. | Se o sinal é devolvido caso o banco recuse o financiamento e quais são as condições suspensivas. |
| Antes da escritura | Capital próprio, comissões bancárias, seguros iniciais e imposto do selo sobre o crédito. | Montante efetivamente aprovado, valor da avaliação, TAEG, MTIC e encargos indicados na FINE. |
| Na compra | IMT, imposto do selo sobre o imóvel, escritura ou autenticação e registos. | Valor tributável, finalidade do imóvel, eventuais isenções e preço atualizado do serviço utilizado. |
| Depois da compra | IMI, condomínio, seguros, mudanças, obras, equipamentos e fundo para manutenção. | Encargos anuais do imóvel e margem disponível depois de pagar a prestação mensal. |
Entrada, sinal e capital próprio não são a mesma coisa
O sinal é normalmente pago na assinatura do contrato-promessa de compra e venda, conhecido como CPCV. Serve para reforçar o compromisso entre comprador e vendedor e costuma ser abatido ao preço final. Contudo, o sinal não é automaticamente a entrada exigida pelo banco. Pode ser superior ou inferior ao capital próprio que será necessário na escritura.
Num crédito para habitação própria e permanente, o financiamento bancário não deve, em regra, ultrapassar 90% do menor valor entre o preço de compra e a avaliação bancária. A instituição pode aprovar uma percentagem inferior. Por isso, uma casa anunciada por 250.000 euros não significa necessariamente uma entrada de apenas 25.000 euros. Se a avaliação for de 240.000 euros, um financiamento de 90% desse valor corresponderia a 216.000 euros, deixando 34.000 euros do preço a cargo do comprador, antes de impostos e restantes despesas.
Há regimes específicos que podem alterar esta lógica para alguns compradores. Os jovens devem verificar separadamente as condições da garantia pública para compradores jovens, sem assumir que o financiamento cobre automaticamente todos os impostos, seguros e custos da escritura.
IMT: o principal imposto na compra da casa
O Imposto Municipal sobre as Transmissões Onerosas de Imóveis, ou IMT, é geralmente o maior imposto pago no momento da aquisição. O cálculo não depende apenas do preço. Considera o maior valor entre o preço declarado no contrato e o valor patrimonial tributário, conhecido como VPT. A taxa também varia com a finalidade do imóvel, o valor tributável, a localização e as regras em vigor na data da compra.
Uma habitação própria e permanente pode beneficiar de escalões e condições diferentes das aplicáveis a uma segunda habitação ou a um imóvel para arrendamento. Como as tabelas e os limites podem ser atualizados, o orçamento deve usar uma simulação recente, feita com os dados concretos do imóvel e dos compradores. Uma estimativa antiga encontrada num anúncio ou num artigo pode não corresponder ao valor a liquidar antes da escritura.
Imposto do selo sobre o imóvel e sobre o crédito
Na aquisição existe, em regra, imposto do selo de 0,8% sobre o valor que serve de base à tributação do imóvel. Se o preço de compra for 250.000 euros e este for o valor tributável, o imposto do selo sobre a aquisição será, num exemplo sem benefício aplicável, de 2.000 euros.
Quando existe financiamento, surge normalmente uma segunda componente: imposto do selo pela utilização do crédito. Nos empréstimos com prazo igual ou superior a cinco anos, situação habitual no crédito à habitação, a taxa geral é de 0,6% sobre o montante financiado. Um empréstimo de 216.000 euros teria, neste exemplo, 1.296 euros de imposto do selo sobre o crédito. Estes dois impostos têm bases diferentes e não devem ser confundidos.
Escritura, autenticação e registos do imóvel
A compra pode ser formalizada por escritura pública ou por documento particular autenticado. Também é necessário registar a aquisição e, havendo crédito, a hipoteca. O custo depende do serviço utilizado, do número de atos e do número de imóveis envolvidos.
Como referência, o serviço Casa Pronta indica atualmente 375 euros para um único ato de registo e 700 euros quando são praticados vários atos, como numa compra com financiamento e hipoteca. Confirme os valores perto da escritura, pois atos adicionais, certidões ou acompanhamento profissional podem criar outros encargos.
Custos do processo bancário
O banco pode cobrar despesas de análise e decisão, avaliação, formalização e outros serviços previstos no preçário. O nome das comissões varia entre instituições, por isso não compare propostas apenas pelo spread ou pela prestação inicial.
Todos os encargos conhecidos devem aparecer na documentação pré-contratual. Antes de avançar, consulte a informação da FINE bancária e compare propostas equivalentes através da TAEG e do MTIC. A avaliação merece atenção especial: além do seu custo, pode reduzir o montante financiado se ficar abaixo do preço negociado.
Quando o contrato usa taxa variável, confirme ainda o indexante e a periodicidade de revisão. A Euribor a seis meses no crédito é comum em Portugal, mas a prestação pode ser revista noutro prazo previsto no contrato. O orçamento inicial deve suportar não apenas a taxa observada na simulação, mas também uma subida razoável da prestação.
Seguros obrigatórios ou associados ao financiamento
O imóvel hipotecado deve estar protegido por seguro adequado, sendo o seguro multirriscos habitação um custo recorrente habitual. O banco pode também exigir ou propor seguro de vida para os titulares do crédito. Mesmo quando estes produtos permitem reduzir o spread, o prémio total pode aumentar com a idade, o capital seguro e as coberturas escolhidas.
Compare o crédito com e sem produtos associados. Um spread menor não garante uma solução mais barata. Verifique se pode contratar seguros fora do banco, como evoluem os prémios e o que acontece ao spread se deixar de manter um produto.
Exemplo de orçamento para uma casa de 250.000 euros
O exemplo seguinte mostra como uma avaliação inferior ao preço pode alterar a necessidade de poupança. Os valores não representam uma proposta bancária nem substituem a simulação fiscal aplicável a cada comprador.
| Elemento do exemplo | Como é calculado | Valor |
|---|---|---|
| Preço da casa | Preço acordado com o vendedor | 250.000 € |
| Avaliação bancária | Valor atribuído pelo perito | 240.000 € |
| Financiamento ilustrativo | 90% do menor valor entre preço e avaliação | 216.000 € |
| Capital para completar o preço | 250.000 € − 216.000 € | 34.000 € |
| Imposto do selo da aquisição | 0,8% de 250.000 €, sem benefício no exemplo | 2.000 € |
| Imposto do selo do crédito | 0,6% de 216.000 €, para prazo igual ou superior a 5 anos | 1.296 € |
| Outros custos | IMT, registos, avaliação, comissões, seguros e despesas adicionais | A apurar |
Neste cenário, o comprador já precisa de pelo menos 37.296 euros para completar o preço e pagar os dois exemplos de imposto do selo. Ainda faltam o IMT, os atos de registo, as despesas bancárias, os seguros e uma reserva para custos imprevistos. É por isso que uma poupança igual a 10% do preço pode ser insuficiente.
Custos que começam depois de receber as chaves
O orçamento não termina na escritura. O proprietário passa a suportar IMI, condomínio, seguros, reparações e manutenção. Num apartamento, peça as atas do condomínio, confirme se existem quotas em dívida e verifique obras extraordinárias aprovadas.
Reserve ainda dinheiro para mudança, mobiliário, eletrodomésticos e obras urgentes. Estes custos podem ficar fora do crédito aprovado; financiá-los depois com crédito pessoal tende a encarecer a compra.
Checklist antes de assinar o CPCV
Antes de entregar o sinal, some o capital para completar o preço, impostos, registos, comissões e uma margem para avaliação inferior. Confirme por escrito a condição de financiamento no CPCV e verifique condomínio, licenças, certificado energético e encargos registados.
Depois, compare o custo completo do crédito habitação, não apenas a prestação anunciada. Uma compra financeiramente segura deixa uma reserva disponível depois da escritura e permite suportar seguros, manutenção e uma eventual subida da taxa sem recorrer imediatamente a novo crédito.
O que deve ficar no orçamento final?
Para comprar casa em Portugal, organize os custos em quatro grupos: dinheiro para o preço, impostos da aquisição, despesas do financiamento e encargos após a compra. Faça os cálculos com o preço e a avaliação esperada, mas mantenha uma margem para um cenário menos favorável. O valor certo da casa não é apenas aquele que o banco aceita financiar; é aquele que o seu orçamento consegue suportar antes e depois da escritura.






